sexta-feira, 1 de junho de 2018

Em tuas mãos


não esquecer quem está nas distâncias
tem sido minha sina
nada me diz o oráculo
a metafísica avoluma minhas indagações
nenhuma resposta conduzo nos meus alforges
vejo-me envelhecer contigo  na companhia da solidão
enfureço-me diante do espelho
rendo-me aos afagos das memórias
e adormeço com o teu retrato nas mãos. (15/05/18)




Encanto matinal


a princesa mostrou o pezinho
o plebeu  beijou-o
deu-lhe uma flor da sua aldeia
era manhã de sol e a princesinha sorria
a guarda real não gostou do que viu
pois  fim ao encanto matinal
e a majestadizinha se pós a chorar. (23/05/18)





Neste sábado


o ar se vai com o vento
fica de cócoras no tempo
desafia a lei da gravidade enquanto descansa
enquanto o poeta respira versos inéditos nos papiros
dos seus ancestrais
neste sábado matinal tão breve quanto o orgasmo
na vida dos mortais. (26/05/18)






Da minha aldeia


a cebola cortada
as lágrimas escorrendo nos cortes
sob os olhos verdes
da cortadora mais linda
da minha aldeia. (28/05/18)



terça-feira, 1 de maio de 2018

Sem lhe faltar


Ele lia Fernando Pessoa
Porque não tinha nada para comer
Eu almoçava em outra mesa com poucas quantias
E sabia isso dele
Dei-lhe uma maçã
Deixei-o comendo poesia lusitana
Sem lhe faltar a sobremesa. 

Manequim do shopping


minha musa é um manequim do shopping
apeguei-me a ela
tornei-me assíduo à loja onde ela está
fiz fotos
notei seu sorriso e sua simpatia por mim
nas diversas poses que fizemos
despertei o ciúme dela
vi-a perder a cabeça
ao ver-me com uma ninfeta
numa certa quarta-feira. 

Discurso do engano


nos meus olhos as lágrimas apago
acendo um sorriso
aqueço-me com uma canção
porque cantando te engano que sou feliz
e tu até te incomodas
pensando que eu já te esqueci . 

O primeiro verso é de Florbela Espanca



Balázio


a bala perdida
perfura
mata de imediato
mata mais tarde
dá um tempo e mata
a bala perdida
pesa no corpo
entorta o homem
faz gemer a criança
alarga o grito da mulher
a bala perdida
nunca se perde
só cai por terra sua vestimenta
encarnada de sangue. 



segunda-feira, 2 de abril de 2018

Leonora


Leonora ,és tu nestas sombras?
Em silêncio te apoias nos portais
Destas portas sempre abertas
Leonora,  estás aqui sem palavras
Não vejo tuas vestes, nem teus olhos
Acreditei que não vivias entre os mortais
Vendo-lhe nesta noite não lhe tenho temores
Leonora, estou a ler os teus lábios
um outro idioma chega aos meus ouvidos
Fumaste antes de vir aqui?
Tinhas esse vício?
Não o percebi no convívio que tínhamos
Leonora, não és  tu algo me diz
Leonora, Leonora já te vais?
Poe, poeta americano caminha  contigo
Exibindo-te um corvo. (23/03/18)


Verdes anos

a mulher do próximo
se aproxima
eu a quero muito
próxima a mim
a mulher do próximo já esteve nos meus braços
quando era mais jovem e solteira
eu brincava com ela no quintal
nos meus verdes anos
nos esquecíamos do tempo
mas ele passava e vozes mandavam-me  ir embora
meus lábios iam vermelhos dos beijos teus. 



Minha pátria


A minha pátria é onde está meu coração
A minha pátria é onde oculto meu tesouro
A minha pátria é a língua da flor
Na boca do beijo-flor
É a flor do Lácio entre fitas
Prendendo os cabelos da moça dos meus desejos
Que pátria real tenho diante dos meus olhos!!
Tão amada
E nada me dar
Nem um aceno

Minha voz


estiquei minha voz nos teus cabelos
deixei-a lamentando tua partida
deixei-a indo e vindo
com dizeres pelo teu corpo
não teve jeito
foste embora
e a minha voz exausta se aquieta
num silêncio que ainda persiste
em falar.