sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Aparição matinal de janeiro

 

vi teus olhos lindos como o mar em calmaria

vi tua face se assemelhando a de uma santa

tudo era lindo em ti

até os teus cabelos cobrindo as tuas costas.

Para os meus e para os teus filhos



meu filho, minha filha
fujam das bandeiras penduradas nas janelas
fujam dos gritos Deus, pátria e família
meu filho, minha filha
fujam de toda espécie nacionalista
é uma doença
é uma opressão
meu filho, minha filha
amem seu país como se ama um homem ou uma mulher
e quando há alaridos é o gozo desse amor
fazendo-se cantiga. 

A poesia das coisas



minha mulher acha a coisa mais linda
mangas reunidas numa bacia
mangas rosadas tal qual as faces das moças brancas
isso ela não diz, isso é uma metáfora que salta no poema
minha mulher acha lindo mesmo são as mangas enchendo uma bacia
da cozinha ouço seus gritos de admiração
alcanço a cozinha e sua voz me diz: só eu acho isso bonito
olho para ela sorrindo, porque estás a sorrir?
_ acabaste de me dar um poema.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Sina

não sou um deus sou apenas um poeta

se subo o monte nenhuma musa espera por mim

subo o monte e sofro porque o pão não é partilhado

uns com muito e muitos sem nada

a liberdade por um triz

o medo domando jovens e velhos

como não sofrer nesse contexto?

não sou um deus sou apenas um bicho do mato

que um dia se descobriu poeta por sofrer demais

as dores do mundo doem em mim

escrever é o meu jeito de fazer justiça

falar versos aos ventos

deixá-los escritos é minha sina

completa minha existência de mortal.   

Lua de agosto



lua cheia de agosto

bolacha fogosa sobre a cidade

bolacha fogosa da minha infância

nas alturas sobre nós

não sacia a fome dos homens Mas enche os meus olhos de encantos.

Perto do fim

 quanto mais conto os dias

mais próximo fico do meu fim

vai ficando o calendário com riscos e anotações

após o meu sétimo dia de ausência

ele e outras tralhas irão para o saco preto de lixo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

(In)domável



sou poeta desta cidade há mais de 30 anos
e ainda estou no espelho do anonimato
andando pelas ruas, sou visto e reconhecido?
sei que sou poeta desta urbe
o que ela sabe de mim?
vou e volto, vivo e morro
nestas idas e vindas
e ela nada sabe das minhas travessias
sou indomável, sou poeta
penduro poemas nos varais
solto minha voz no ar
avolumo poemas nos livros
o vento leva-os para longe?
mas para onde?
vasta é esta cidade mais vasto é o meu coração
terra que ninguém anda.

Coração de poeta



meu coração não é terra de ninguém
é terra desconhecida no meu peito
teus passos não ficaram lá
teu cheiro não domou minhas narinas
só Deus sonda estas terras do meu lado esquerdo.

Em tudo



outubro chegou ao fim
vejo-me mais moço
transbordando esperanças pelos poros
a felicidade fez-me companhia
e a solidão não deu as caras por aqui
não me faltou palavras para um poema
porque a poesia é minha amiga
e eu a vejo em tudo até na minha caneca dileta.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

De uma memória Juvenil

 


quando tu vinhas sob o sol matinal

com aquela farda do colégio Sant’Ana

tu eras mais linda do que o cavalo dileto do faraó

tu me abrias um sorriso e eu lhe destinava outro bem maior

eu a queria tanto mas tu a mim nem um pouco.  

Por um instante

 

sigo uma ilusão de olhos azuis

sua cintura é bem desenhada

revelando a bela imagem das suas ancas

suas pernas firmes vão a minha frente

consola-me segui-la pois ainda sou jovem

tenho todo o tempo do mundo

nas linhas das minhas mãos

e ainda não temo a morte

com ela tudo é incerto

mas eu a quero mesmo assim

nem que seja por um instante.

 

 

O que me resta

 


as vezes só me resta um gemido

as vezes só me resta o teu olhar

as vezes só me resta um aceno de um desconhecido

as vezes só me resta uma punheta

as vezes só me resta escolher uma estrela solitária

assim como eu no imenso céu

as vezes só me resta a memória da tua nudez

as vezes só me resta um sonho picante da noite passada

as vezes só me resta a tua bunda que tu me exibes no instagram

as vezes só me resta uma folha em branco na qual se desliza

uma esferográfica buscando um poema e nada mais.