sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Bem vivas

 

não gosto de rosas

elas iludem as mulheres

enfeitam seus corpos mortos

ficam aos montes sobre os seus túmulos

gosto de rosas vermelhas fincadas na terra

sob a vadiagem dos ventos que assanham meus cabelos

gosto de rosas diversas se avolumando nos jardins

vivas, bem vivas

como as mulheres que eu vejo indo e vindo

nas minhas andanças. (30\10\25)

Para Adélia Prado

 

o teu eu poético me revela Jonathan

causas-me ciúmes

vejo-o deitado nos teus versos

lindo é o meu nome mas tu não o mostras nos teus poemas

para piorar meu ciúme tu fazes uma trindade

unindo-se a Deus e ao Jonathan. (11\11\25)

De um dizer da minha amada

 alexa é o olho que tudo ver

ela só não ver o olho do teu cu

piscando para mim pela manhã

ela também não deduz os fonemas matinais

que o teu orifício joga no ar. (09\02\26)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Aparição matinal de janeiro

 

vi teus olhos lindos como o mar em calmaria

vi tua face se assemelhando a de uma santa

tudo era lindo em ti

até os teus cabelos cobrindo as tuas costas.

Para os meus e para os teus filhos



meu filho, minha filha
fujam das bandeiras penduradas nas janelas
fujam dos gritos Deus, pátria e família
meu filho, minha filha
fujam de toda espécie nacionalista
é uma doença
é uma opressão
meu filho, minha filha
amem seu país como se ama um homem ou uma mulher
e quando há alaridos é o gozo desse amor
fazendo-se cantiga. 

A poesia das coisas



minha mulher acha a coisa mais linda
mangas reunidas numa bacia
mangas rosadas tal qual as faces das moças brancas
isso ela não diz, isso é uma metáfora que salta no poema
minha mulher acha lindo mesmo são as mangas enchendo uma bacia
da cozinha ouço seus gritos de admiração
alcanço a cozinha e sua voz me diz: só eu acho isso bonito
olho para ela sorrindo, porque estás a sorrir?
_ acabaste de me dar um poema.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Sina

não sou um deus sou apenas um poeta

se subo o monte nenhuma musa espera por mim

subo o monte e sofro porque o pão não é partilhado

uns com muito e muitos sem nada

a liberdade por um triz

o medo domando jovens e velhos

como não sofrer nesse contexto?

não sou um deus sou apenas um bicho do mato

que um dia se descobriu poeta por sofrer demais

as dores do mundo doem em mim

escrever é o meu jeito de fazer justiça

falar versos aos ventos

deixá-los escritos é minha sina

completa minha existência de mortal.   

Lua de agosto



lua cheia de agosto

bolacha fogosa sobre a cidade

bolacha fogosa da minha infância

nas alturas sobre nós

não sacia a fome dos homens Mas enche os meus olhos de encantos.

Perto do fim

 quanto mais conto os dias

mais próximo fico do meu fim

vai ficando o calendário com riscos e anotações

após o meu sétimo dia de ausência

ele e outras tralhas irão para o saco preto de lixo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

(In)domável



sou poeta desta cidade há mais de 30 anos
e ainda estou no espelho do anonimato
andando pelas ruas, sou visto e reconhecido?
sei que sou poeta desta urbe
o que ela sabe de mim?
vou e volto, vivo e morro
nestas idas e vindas
e ela nada sabe das minhas travessias
sou indomável, sou poeta
penduro poemas nos varais
solto minha voz no ar
avolumo poemas nos livros
o vento leva-os para longe?
mas para onde?
vasta é esta cidade mais vasto é o meu coração
terra que ninguém anda.

Coração de poeta



meu coração não é terra de ninguém
é terra desconhecida no meu peito
teus passos não ficaram lá
teu cheiro não domou minhas narinas
só Deus sonda estas terras do meu lado esquerdo.

Em tudo



outubro chegou ao fim
vejo-me mais moço
transbordando esperanças pelos poros
a felicidade fez-me companhia
e a solidão não deu as caras por aqui
não me faltou palavras para um poema
porque a poesia é minha amiga
e eu a vejo em tudo até na minha caneca dileta.