sexta-feira, 10 de julho de 2026

Com os olhos

 

eu como tua bunda em silêncio

eu como tua bunda quando tu a exibes no instagram

eu como tua bunda de manhã

às vezes a tarde

ás vezes a noite

eu como tua bunda com os olhos

fazendo justiça com as próprias mãos. 



Pássaro de Francisco Carvalho



pássaro sobrenatural
não sei com qual dom o reconheço
seu canto invade a noite
alcança o céu de poucas estrelas
pássaro de Tróia que sou eu
ou sou perseguido por ele?
esta indagação matinal persiste em mim
irmanar-me-ei a ele para que ele seja eu
e eu seja ele.

O primeiro verso é de Márcio Catunda

Das linhas do evangelho de Mateus

 

Vão às ovelhas perdidas, Mt 10,6


leva poeta os teus versos aos perdidos
consola com eles as meretrizes
vai poeta, tu és meu discípulo
os loucos te aguardam nos caminhos
ria com eles, deite seus versos nos seus lábios
eles os levarão para longe como se vento fossem
vai poeta, tua alma franciscana te guiará entre os lobos
porque ela é mais prudente do que a serpente
vai poeta, porque no ventre de tua mãe eu te fiz sacerdote.

sábado, 16 de maio de 2026

Inspiração vespertina



na tua ausência penso em ti

na tua ausência busco palavras para um poema

na tua ausência entrego-me aos afazeres tentando fugir da solidão

na tua ausência rememoro as tatuagens do teu corpo

na tua ausência sinto-me torto, pesando só para um lado

na tua ausência respiro intensamente e o teu cheiro invade minhas narinas

na tua ausência vejo teus cabelos ao vento quando vou à janela

na tua ausência fecho os olhos e os nossos lábios se osculam

na tua ausência só não vale te esquecer.

Proposta vespertina



vem menina, ver o arco íris

ele está segurando a chuva que vem

menina, o arco íris não vai se demorar, vem ver

menina, tu não me dás ouvidos

nem o teu coração

o arco íris se foi

e a chuva chegou

vem menina, ver o teu poeta todo molhado!!  

(In)completo

 


a filha que eu não tive

faze-me falta

todo o meu ser clama por ela

ando por aí incompleto

falta-me o riso dela pela casa

falta-me suas mãos entre os meus cabelos

tecendo afetos

a filha que eu não tive não a terei

o que eu tenho é este desejo

que envelhece em mim. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Aos conservadores em suas latas II



não me venha com sua lata com tampa e fundo
não me venha com sua lata lotada de preconceitos, racismo,
feminicídio, falso moralismo… tudo bem conservado
não me venha com sua lata colorida exibindo sua foto
exaltando a hipocrisia
não me venha com sua lata enfeitar os meus dias
não me venha com sua lata pequena ou grande
com tudo bem conservado
não me venha com sua lata pois eu tenho várias
sem tampa e sem fundo por onde passa a diversidade,
as diferenças, amor e mais amor para acolher a todos
no meu mundo, vasto mundo.

Da memória de um escriba

 

a lésbica que eu amava

era um substantivo feminino acentuado

a lésbica que eu amava era uma proparoxítona

na antepenúltima sílaba silabou adeus

que me destinou à solidão. 

Outra forma de dizer que somos todos iguais



os caras brancos mijam
os caras negros mijam
suas urinas se misturam no sanitário
eles não percebem que ficam iguais no vaso
eles não percebem que os odores se unificam
difícil saber qual urina fede mais
tudo fica igual no vaso
mas os caras brancos e os caras negros
seguem desiguais por aí.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Bem vivas

 

não gosto de rosas

elas iludem as mulheres

enfeitam seus corpos mortos

ficam aos montes sobre os seus túmulos

gosto de rosas vermelhas fincadas na terra

sob a vadiagem dos ventos que assanham meus cabelos

gosto de rosas diversas se avolumando nos jardins

vivas, bem vivas

como as mulheres que eu vejo indo e vindo

nas minhas andanças. (30\10\25)

Para Adélia Prado

 

o teu eu poético me revela Jonathan

causas-me ciúmes

vejo-o deitado nos teus versos

lindo é o meu nome mas tu não o mostras nos teus poemas

para piorar meu ciúme tu fazes uma trindade

unindo-se a Deus e ao Jonathan. (11\11\25)

De um dizer da minha amada

 alexa é o olho que tudo ver

ela só não ver o olho do teu cu

piscando para mim pela manhã

ela também não deduz os fonemas matinais

que o teu orifício joga no ar. (09\02\26)