quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Últimos dizeres de um tebano desconhecido

a vida é curta dizia Édipo

com os pés inchados

a vida é curta dizia Édipo

com os olhos furados

a caminho do exílio com sua dolorosa sabedoria

sua voz foi ficando distante de Jocasta

que não tinha mais ouvidos para ouvir. 

Acontecimento matinal

o vento brinca sob o teu vestido

avolumando-se no teu corpo

nem sei me viste

eu estava cabisbaixo com os olhos sobre palavras sagradas

mas sei que eras tu

a mulher que passava com tanta beleza

fazendo  florescer em mim este poema. 

Com condição

 se me pedires um verso como uma metáfora

eu lhe darei

se me pedires um poema com versos brancos

eu lhe darei

se me pedires um poemeto engraçadinho

eu lhe darei

só uma súplica lhe faço não me peça um soneto

sou um poeta incompleto

nessa arte da forma fixa

nem uma linha lhe prometo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cantiga

 



Cantiga



Essa dor que trago comigo

É velha companheira

Rival da solidão que não sai de mim

Fazendo ritmo e canção

Que não tocará no rádio

Ouvirás cada verso da cantiga

No meu corpo

Quando me encontrares. 

 

 

porque eu não te esqueço



tu andas pelo mundo e não te lembras de mim
nesta tua viagem recente desejei que te lembrasses de mim
vendo um transeunte, uma rua deserta ou um olhar displicente de algum estrangeiro
desejei que te lembrasses de mim porque eu não te esqueço
quando alcanço o terceiro mistério do meu terço.

Nos olhos dela



a poesia cruza as pernas
aperta meu coração sem me tocar
a poesia anda pela rua
as vezes ela é santa
as vezes ela é puta
o poeta deita os olhos nela no café Jaibaras
olhando o celular indiferente ao velho vate
o poeta se vai em silêncio e olha para trás
e se esbarra nos olhos dela.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Com os olhos

 

eu como tua bunda em silêncio

eu como tua bunda quando tu a exibes no instagram

eu como tua bunda de manhã

às vezes a tarde

ás vezes a noite

eu como tua bunda com os olhos

fazendo justiça com as próprias mãos. 



Pássaro de Francisco Carvalho



pássaro sobrenatural
não sei com qual dom o reconheço
seu canto invade a noite
alcança o céu de poucas estrelas
pássaro de Tróia que sou eu
ou sou perseguido por ele?
esta indagação matinal persiste em mim
irmanar-me-ei a ele para que ele seja eu
e eu seja ele.

O primeiro verso é de Márcio Catunda

Das linhas do evangelho de Mateus

 

Vão às ovelhas perdidas, Mt 10,6


leva poeta os teus versos aos perdidos
consola com eles as meretrizes
vai poeta, tu és meu discípulo
os loucos te aguardam nos caminhos
ria com eles, deite seus versos nos seus lábios
eles os levarão para longe como se vento fossem
vai poeta, tua alma franciscana te guiará entre os lobos
porque ela é mais prudente do que a serpente
vai poeta, porque no ventre de tua mãe eu te fiz sacerdote.

sábado, 16 de maio de 2026

Inspiração vespertina



na tua ausência penso em ti

na tua ausência busco palavras para um poema

na tua ausência entrego-me aos afazeres tentando fugir da solidão

na tua ausência rememoro as tatuagens do teu corpo

na tua ausência sinto-me torto, pesando só para um lado

na tua ausência respiro intensamente e o teu cheiro invade minhas narinas

na tua ausência vejo teus cabelos ao vento quando vou à janela

na tua ausência fecho os olhos e os nossos lábios se osculam

na tua ausência só não vale te esquecer.

Proposta vespertina



vem menina, ver o arco íris

ele está segurando a chuva que vem

menina, o arco íris não vai se demorar, vem ver

menina, tu não me dás ouvidos

nem o teu coração

o arco íris se foi

e a chuva chegou

vem menina, ver o teu poeta todo molhado!!  

(In)completo

 


a filha que eu não tive

faze-me falta

todo o meu ser clama por ela

ando por aí incompleto

falta-me o riso dela pela casa

falta-me suas mãos entre os meus cabelos

tecendo afetos

a filha que eu não tive não a terei

o que eu tenho é este desejo

que envelhece em mim.