sábado, 17 de outubro de 2026

(In)finito

 

Deste-me um par de asas

Para que eu lhe seguisse

Ensaiei um voo

Foste embora

Não consegui lhe acompanhar

Sumiste na imensidão

E o meu olhar azulou no infinito. 

 


Partida

 



Que chegue a hora

Que se esgote o tempo

Que se diga adeus

Sem ósculos, sem abraços

Não posso perder tempo

Preciso mesmo é partir sem memórias

Sem desejos de voltar. 

Presa

 

És uma serpente

Sei porque sou filho de Eva

Não vais me enganar

Vou me enganar

Porque te amo

E já sou tua presa.

 

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Últimos dizeres de um tebano desconhecido

a vida é curta dizia Édipo

com os pés inchados

a vida é curta dizia Édipo

com os olhos furados

a caminho do exílio com sua dolorosa sabedoria

sua voz foi ficando distante de Jocasta

que não tinha mais ouvidos para ouvir. 

Acontecimento matinal

o vento brinca sob o teu vestido

avolumando-se no teu corpo

nem sei me viste

eu estava cabisbaixo com os olhos sobre palavras sagradas

mas sei que eras tu

a mulher que passava com tanta beleza

fazendo  florescer em mim este poema. 

Com condição

 se me pedires um verso como uma metáfora

eu lhe darei

se me pedires um poema com versos brancos

eu lhe darei

se me pedires um poemeto engraçadinho

eu lhe darei

só uma súplica lhe faço não me peça um soneto

sou um poeta incompleto

nessa arte da forma fixa

nem uma linha lhe prometo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cantiga

 



Cantiga



Essa dor que trago comigo

É velha companheira

Rival da solidão que não sai de mim

Fazendo ritmo e canção

Que não tocará no rádio

Ouvirás cada verso da cantiga

No meu corpo

Quando me encontrares. 

 

 

porque eu não te esqueço



tu andas pelo mundo e não te lembras de mim
nesta tua viagem recente desejei que te lembrasses de mim
vendo um transeunte, uma rua deserta ou um olhar displicente de algum estrangeiro
desejei que te lembrasses de mim porque eu não te esqueço
quando alcanço o terceiro mistério do meu terço.

Nos olhos dela



a poesia cruza as pernas
aperta meu coração sem me tocar
a poesia anda pela rua
as vezes ela é santa
as vezes ela é puta
o poeta deita os olhos nela no café Jaibaras
olhando o celular indiferente ao velho vate
o poeta se vai em silêncio e olha para trás
e se esbarra nos olhos dela.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Com os olhos

 

eu como tua bunda em silêncio

eu como tua bunda quando tu a exibes no instagram

eu como tua bunda de manhã

às vezes a tarde

ás vezes a noite

eu como tua bunda com os olhos

fazendo justiça com as próprias mãos. 



Pássaro de Francisco Carvalho



pássaro sobrenatural
não sei com qual dom o reconheço
seu canto invade a noite
alcança o céu de poucas estrelas
pássaro de Tróia que sou eu
ou sou perseguido por ele?
esta indagação matinal persiste em mim
irmanar-me-ei a ele para que ele seja eu
e eu seja ele.

O primeiro verso é de Márcio Catunda

Das linhas do evangelho de Mateus

 

Vão às ovelhas perdidas, Mt 10,6


leva poeta os teus versos aos perdidos
consola com eles as meretrizes
vai poeta, tu és meu discípulo
os loucos te aguardam nos caminhos
ria com eles, deite seus versos nos seus lábios
eles os levarão para longe como se vento fossem
vai poeta, tua alma franciscana te guiará entre os lobos
porque ela é mais prudente do que a serpente
vai poeta, porque no ventre de tua mãe eu te fiz sacerdote.