sexta-feira, 1 de julho de 2022

Mãe nada gentil

a pátria amada é fascista
o ódio se avoluma sob o céu
e o amor é trucidado em cada esquina
há sangue no poema e em todo o país
há sangue nas tuas lágrimas e nas gotas de sereno
que amanheceu no teu rosto
há sangue alagando o solo deste povo
filhos de uma mãe nada gentil.

Encontro matinal

No meio do caminho tinha uma cobra e um celular quebrado
No meio do caminho tinha um grito calado
No meio do caminho tinha um olhar que deixou de seguir as distâncias
No meio do caminho tinha andanças exaustas
Deixei-as para trás
No meio do caminho o vento brinca e joga areia
Nos olhos do tempo que tece sua passagem
No meio do caminho o poeta reitera versos
Encontra-se com textos para a poesia continuar sua jornada. 

Sono (in)desejável



durmo
acordo
é um novo dia
novas situações ou situações que envelhecem comigo
durmo
acordo
é um novo ano
novas esperanças
estou mais velho
durmo
acordo
meus filhos foram embora
já são homens feitos
passo os meus dias só com Eva
carecendo do paraíso que não lhe posso dar
durmo
acordo
será que acordei ou a rotina continua por se mesma?
durmo
acordo
finda um dia
o cansaço de longos anos rende-se à falência
e o sono eterno se apossa de nós.

Das tuas alturas

Tremo diante de ti tal qual vara verde
Porque és meu Deus
Porque ainda sou pecador
Porque ainda lhe tenho temor
Tremo diante de ti meu Deus
Porque não tenho as mãos limpas
Nem o coração puro
Todo dia fico sob o vosso olhar
Todo dia é o último para mim
É por isso que me vês tremendo
Das tuas alturas onde tudo é eterno.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

No meu coco

o meu coco fica odara
ouvindo o coco do Caetano
no meu coco as vezes tem um mar
as vezes tem apenas sal
lágrimas de Sobral
no meu coco tem poesia
que transita do lado direito para o esquerdo
a inspiração vai e vem
como se fosse o vento
no meu coco tem outros dentro
às vezes há só um saco vazio de vento
com fonemas pulando dentro
no meu coco há dores e delícias
coragem de cangaceiro e fé de um santo
no meu coco não há água de um coco verde
fico odara quando a encontro abundante
no meu bar dileto.




Queixa junina

amei muitas musas
até fiz queixas por mais afetos
o tempo passou
e musa de poeta é página virada
ficou no passado
vago no monte parnaso
por lá só o vento e a solidão se avolumam
e a memória dos vates que me antecederam.

Entre os mortais



vi o sol matinal
meu olhar ficou cheio de luz
luzes coloridas
impedindo-me de ver as distâncias
veio a chuva
foi-se a chuva
ficou o frio
meu nariz entupiu
respiro pela boca
ainda é junho entre os mortais.

Como se fosse

é como se fosse uma guerra

todo dia devorar um leão

e amarrar outro pro dia seguinte

é como se fosse uma guerra

o pão de cada dia

a labuta em falta

falta tudo até afetos

é como se fosse uma guerra

a solidão em todos os lugares

o capital no punho de poucos

e as ruas acolhendo perdedores

é como se fosse uma guerra

não vencemos nunca.


O verso que se repete é de Paulo Leminski

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Na memória



na moldura relógios derretem-se
sob o sol
ou sob as nuvens?
leio-os enquanto se derretem
afago-os na pintura
vejo-me findando
sob o sol
sob o céu.

Acontecimento matinal



andando pela casa ouvi um estalo
busquei aquele som com os olhos
vi uma barata em linha reta que se desenhou no piso
sem intencionar interrompi a jornada do inseto. 

Das linhas de James Joyce



frágil rosa branca e frágil
a mão que a estende
a vi branca como a rosa
a vi com veias rosadas
palmas delicadas
li suas linhas na ventania
entre nós tudo se vestiu de enigmas
e o silêncio se apossou de mim
enquanto meu olhar se deleitava no teu sorriso.
Os dois versos iniciais são de James Joyce

Nascedouro I



Eu tenho um poema na garganta
Que não se faz fala
Eu tenho um poema no desejo
Que não se realiza
Eu tenho um poema no silêncio
Que se nega ao barulho
Eu tenho um poema no olhar
Que não se deita no papel
Eu tenho um poema no fim do abismo
Quem irá lá buscá-lo?
Eu tenho um poema sujo
Que teme fazer alardes
Eu tenho um poema em gestação
Na minha solidão ele se encorpa
Eu tenho um poema que não chegará
No tempo previsto
Eu tenho um poema no bolso do jeans
Bolso raso
Poema profundo?
Finda o dia e eu tenho um poema
Que de mim não sai.