sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

De fato



data de nascimento
data de morte
começo e fim
realidade que nos torna iguais
nos sete palmos de terra
onde repousamos de fato. (01\02\24)


Na esquina



vi o travesti sob o céu noturno
de pé ereto na esquina
como se fosse um poste
sendo a metáfora de um falo
transeuntes olham-no com estranheza
carros vão e vem no tempo que passa
o travesti não tem relógio no pulso
mas doma o tempo na sua longa espera.

O poema



não tenhas medo, ouve:
é um poema
leva-o no teu coração
ou na tua memória
aproxima-te de mim
eu sou apenas um poeta
trago poemas nos bolsos
jogo-os no ar como se fossem pombos
vejo-os cair no chão da cidade
longe dos teus olhos
ignorados pelos transeuntes.

Os dois versos que iniciam o poema são de Miguel Torga

sábado, 6 de janeiro de 2024

Era um garoto negro como eu



era apenas um garoto mijando ao lado de um carro
era um garoto mijando em Mississipi
um garoto negro
negro como a noite
mijando o dia de Mississipi
deteram o garoto na viatura
condenaram-no por verter água
traumatizaram sua vida por inteiro
Mississipi vai pagar por isso?
era apenas um garoto negro como eu
que fez xixi em Mississipi. ( 16\12\23)

Ao grande - kiskadi



bem te vi
bem-te-vi
bem te ouvi
apresentou- se a mim sem alcunhas
nesta manhã
bem-te-vi
bem te vi
chegaste sem rodeios
ficaste dizendo-me quem tu és
e quando te foi conveniente
foste embora. (19\12\23)

Noite (in)feliz



noite feliz
só que não
guerras no ar
inocentes mortos em Gaza
excessos e faltas nos lares
nessa dialética o tempo passa
a cidade pisca com suas luzes
e o menino Jesus sempre vem
com ou sem manjedoura. 

Nos meus olhos



vejo manequins decapitadas no shopping
ou elas perdem a cabeça quando me veem?
hoje ao entrar numa loja
uma manequim branca como a neve
exibiu -me os seios pequenos
apontados para mim como se fosse um dedo em riste
fui até eles e cobri-os para que aquela beleza
não caísse em outros olhos. (23\12\23)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Na minha memória

 

encostaste as virilhas no meu cotovelo esquerdo

enquanto passavas por mim no corredor do ônibus

virilhas quentes tu tens

virilhas sob o jeans azul

virilhas ardentes ficaram na minha memória

avolumando os meus pecados. (29\11\23)

 

Na cidade

 

transeuntes

calçadas

andanças

olhares

indiferença

cidade sob o sol

presépio

todo dia sob o céu

no tempo que passa

no presépio permanente

na urbe que não ver. (30\11\23)

 

Ponte infinita

 

eu canto para me consolar

meu grito é um protesto

meu poema é a minha forma de fazer justiça

eu canto

eu grito

e ao parir meus poemas pela cidade

vou-me completo

sendo negro com os negros

e pobre com os pobres

para que minha cantiga os anime

e o meu grito não os deixe dormir

por muito tempo. (07\12\23)

 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Raridade vespertina

 Não fico indiferente ao teu cruzar de pernas

Coxa sobre coxa

Perna sobre perna

O que eu poderia ver entre as tuas pernas?

Tudo tu ocultas nessa tua pose

Mas o meu olhar penetra nas trevas

De um túnel inexistente e acredita ver algo

Que se deixa mostrar apenas aos poetas. (20\10\23)

 

Via sacra cotidiana

 Jesus Cristo está na beira das calçadas

Jesus Cristo está tatuado nas costas dos excluídos

Jesus Cristo está nu da cintura para cima

Transeuntes indo e vindo

O tempo passando

Veículos velozes e furiosos?

O semáforo sangra sob o céu

Carros em fila paralisados

Jesus caminha entre eles com as mãos estendidas

Finda o percurso sem nada nas palmas. (27\010\23)