sábado, 5 de agosto de 2023

Perspectivas



os prédios olham de cima para baixo
os ônibus lotados de falas e fonemas
os transeuntes com pressas involuntárias
e o poeta bêbado equilibrando-se no paralelepipedo
os prédios olham de cima para baixo
a moça manca na faixa de pedestre
os veículos se aproximando
os passos apressados
os prédios olham de cima para baixo
erectos como se fossem falos
nenhuma curva em suas linhas
bem fincadas no solo
os prédios olham de cima para baixo
o dia vindo
a noite chegando
o tempo passando
os prédios olham de cima para baixo
a freira ciosa
a adúltera transbordando desejos pelos poros
e um tarado se reprimindo bem distante
os prédios olham de cima para baixo
dois loucos deduzindo tudo
olhando de baixo para cima
desatentos a vida e a morte. (25\07\23) Fortaleza

Ao gosto



agosto
a gosto
no tempero
no amor plural
agosto
a gosto
nos pratos
nos paladares
agosto
a gosto
nos olhares
nas bocas
nos corpos ciosos
agosto
a gosto
no bom gosto
até o fim. (01\08\23)

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Uma mulher sentada

 



uma mulher sentada

é apenas uma mulher sentada ?

por que envelheço o olhar contemplando-a?

por que indago se o que vejo é o que eu estou a ver?

a queda de uma maçã faz surgir uma nova lei

e uma mulher sentada o que quer nos mostrar em sua pose despropositada ?

coleciono memórias de mulheres sentadas

meu olhar no cotidiano alcança a todas

por mais que eu indague ou queira entender

tentam me convencer que o que eu vejo

é apenas uma mulher sentada. 

Por todo dia

 

o corpo

a faca
a perfuração
o sangue escorrendo na lâmina
o grito se esticando no ar
a noite se acorda
desperta a cidade
para que vejam aos seus pés
o corpo
a faca
o sangue coalhado na lâmina
e fiquem a ruminar os suspeitos
por todo o dia. 







Devoto



sou devoto da tua nudez
curvo-me a ela
rezo para que tenhas vida longa
e não me abandones nas minhas noites insones
tu me olhas de joelhos e me destinas teu sorriso 
ordenando-me a erguer-me porque não és uma santa.

Mal começa o dia

 



mal começa o dia e tu já estás no meu pensamento

mal começa o dia e eu sou mais pecador do que ontem

mal começa o dia e eu já me vou fugindo de tantas tentações

mal começa o dia e eu já estou exausto

mal começa o dia e eu estou mais frágil diante de tudo

mal começa o dia e eu estou mais descrente

mal começa o dia e eu careço bem mais da bondade de Deus

mal começa o dia e eu sou tão finito

mal começa o dia e eu já penso num poema

mal começa o dia e eu me engasgo com uma metáfora

mal começa o dia e eu inquieto as dúvidas

mal começa o dia e eu lamento por não conseguir te esquecer

mal começa o dia e eu fico a chamar a noite

mal começa o dia e o meu poema inacabado ordena:

-poeta, vá dormir!!!

sábado, 3 de junho de 2023

Visível



Recebo uma nova idade neste dia 18\05\23
Num tempo que passa
Na vida que finda
Na presença da morte que reina no mundo
Recebo uma nova idade e mais velho estou
Tenho muito para dizer por que vivo entre a cruz e a espada
Vivo entre o bem e o mal
Sendo santo e pecador
Recebo uma nova idade com alegria
Conduzo-me numa bicicleta para outra cidade
Exibindo-a visível no meu corpo
Que está ficando antigo. 

No tempo

Dentro do tempo veloz
Eu estou
Dentro do tempo veloz
Envelheço
Dentro do tempo veloz
Pedras não ficam sob pedras
Dentro do tempo veloz
Tudo passa, pois nada é para sempre
Dentro do tempo veloz
Uns vivem, outros morrem
Dentro do tempo veloz
Lágrimas e sorrisos
Dentro do tempo veloz
Eu e tu
Tu e eu
Horas em silêncio
Horas aos gritos
Aprendendo e desaprendendo
Trilhando os caminhos da infância
Que não alcança a criança que fomos.

Com o tempo diante do espelho


Na juventude as minhas sobrancelhas eram alinhadas
Os pelos não se rebelavam e eram negros como a noite
Agora que envelheço vejo-as desalinhadas e grisalhas
Os pelos se alongam para cima como se fossem antenas
Como se desejassem alcançar os céus. 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Na persistência do tempo

o tempo passa silencioso no meu relógio
e no meu pulso
os ponteiros se movimentam
o silêncio persiste diante da vida
que nasce e morre.

Súplica de cá para muito longe

portugal, portugal, estou saudoso de ti
como posso vos amar sem vos conhecer?
senhor Deus não me permita sair desta vida
sem antes beber vinho em Lisboa
sem antes sorrir para homens e mulheres deste país de tanto mar
portugal, portugal, estou saudoso de ti
habite nos meus ouvidos as vozes dos fadistas
transborda minha taça com o teu melhor vinho
venha buscar-me Ana na tua nau de palavras e sonhos
antes que a indesejável das gentes me encontre por aqui
portugal, portugal,estou envelhecendo e o desejo de conhecer-vos
amadurece comigo
não permita Senhor Deus que eu me vá sem antes deitar os olhos
no teu mar e no teu céu
não permita Senhor Deus que eu me vá sem antes sentir o teu chão sob os meus pés.
que os anjos digam amém
e os sinos também.

No tecido da metafísica

Voltando para casa achei um terço na estrada
Peguei-o e guardei-o no bolso
Em casa contei as contas no terceiro mistério faltava uma
Quem o fez não se deu conta?
Quem perdeu o terço nada percebeu ao rezar?
Se não percebeu ficou devendo ave-marias?
Indagações se avolumam em mim
Omito-as do poema deitando-as no tecido
Exposto pela metafísica.