domingo, 1 de setembro de 2019

Sob o céu I



amazônia
em chamas
chama
seu grito alcança o ar
não cai nos ouvidos dos que lucram
amazônia
em chamas
chama
seu grito escuro faz noite
nos satélites da NASA
amazônia
em chamas
chama
sob o céu. (22/08/19)









quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Sob o viaduto

Cadê os pobres que lotavam o viaduto do santuário de são Francisco?
a vida melhorou e eu nem percebi?
procuro-os vejo apenas espaços vazios
penso coisas horríveis possíveis de acontecer nestes tempos
ando e deito o olhar em santo Antônio
tudo está calmo sob o viaduto
está inquieto é o meu coração
meus pensamentos se avolumam
tenho medo de dizê-los ao santo
que me estende a mão com um pãozinho
pego-o e me vou com minhas indagações. 


Discurso de um sonhador


eu vou te comer Maria Izabel
e depois irei para Paris
se vais lembrar de mim eu não sei 
sei que me verás na tela do teu celular ao lado da torre eiffel
lendo poemas  numa manhã de domingo 
o que vais dizer eu não sei
sei que tu verás o meu sorriso
e o meu sonho  realizado. 

No espelho

olho-me no espelho e  vejo meu pai
sinto meu pai em mim 
já ouvi sua voz no meu discurso 
Até percebi que eram meus os seus gestos 
olho- me no espelho e sempre me vejo
o tempo passou deixou minhas pálpebras pesadas
e o meu pai está no espelho olhando para mim
olho-o ternamente e  me vou deixando a barba por fazer. 


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Indagações noturnas




amém
além
o mar me diz
o vento me confirma
amém
além
numa voz feminina
querendo cantar
ou cantando com disfarce
essa voz que desconheço
vem do mar?
a quem ela pertence?
se vem com o vento para onde vai?
se destina a alguém?
aproximo-me mais do mar
fico mais perto do vento
tecendo indagações noturnas.

Da minha lavra


Tua bunda é mole
Não a vi
Nem peguei- a
Como sei disso?
Tua linda voz confessou- me isso
Nos meus ouvidos
Aí sua fala alcançou minha boca
E o poema foi se chegando
Tirou- me o sono para ficar bem tecido
Na melhor linhagem da minha lavra.








Mal começa o dia




mal começa o dia e tu já estás no meu pensamento
mal começa o dia e eu sou mais pecador do que ontem
mal começa o dia e eu já me vou fugindo de tantas tentações
mal começa o dia e eu já estou exausto
mal começa o dia e eu estou mais frágil diante de tudo
mal começa o dia e eu estou mais descrente
mal começa o dia e eu careço bem mais da bondade de Deus
mal começa o dia e eu sou tão finito
mal começa o dia e eu já penso num poema
mal começa o dia e eu me engasgo com uma metáfora
mal começa o dia e eu inquieto as dúvidas
mal começa o dia e eu lamento por não conseguir te esquecer
mal começa o dia e eu fico a chamar a noite
mal começa o dia e o meu poema inacabado ordena:
-poeta, vá dormir!!!


Na cabeça




ela sobe e desce a ladeira com a palavra de Deus na cabeça
o livro santo nem se move sobre o seu cocó
todos os dias vejo essa mulher subindo e descendo a ladeira
e sobre o seu cocó tudo se acomoda: pote com água,
feixe de lenha,trouxa de roupa e aos sábados ouço sua voz
indo ao templo com a palavra de Deus na cabeça.

sábado, 1 de junho de 2019

A mosca do diabo



a mosca sai da panela do diabo
e me encontra lendo poesia
vejo-a melada de sopa
a mosca ronda minha cabeça
expulso-a deslizando os dedos nos meus cabelos
a mosca suja de sopa não desiste de mim
gruda-se no meu livro dileto
fico enfurecido e acerto um lápis nela
a mosca se vai mas a mancha fica
fazendo-me lembrar do episódio.


Charme incerto


A incerteza è charmosa por isso fecho os olhos
E ando por aí sem saber no que esbarro
Nem reconhecer os que me tocam
As trevas é o que eu tenho diante dos olhos
Agarro- me a ela enquanto teço minhas andanças
No charme incerto de nada ver
Nem saber saber entre os mortais .



Devoto



sou devoto da tua nudez
curvo-me a ela
rezo para que tenhas vida longa
e não me abandones nas minhas noites insones
tu me olhas de joelhos e me destinas teu sorriso
ordenando-me a erguer-me porque não és uma santa.


Agora eu sei




agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
falta pão e sobra mesas no poema
avoluma-se a fome e a miséria nas ruas
nossas mãos viram como se partilha no templo
mas deixaram esse saber cair por terra
e ficaram gordas de ambições
agora de posse dessa certeza
olho as minhas mãos injustas
ergo-as ao infinito para que Tu me ensines a escrever nelas
novas linhas de bondade e de justiça.


O verso inicial é de Francisco Carvalho