quarta-feira, 4 de maio de 2016

Boi morto







Morre o boi 
morre o ruminar
morre o sonho
morre o dia
chega a noite
que cai sobre o boi morto
ocultando-o sobre o solo. (27/11/13)


Verso inicial de José Paulo Paes 

Seus seios





Seus seios uma pérola merecem 
Digo isso as minhas mãos
Que se deslizam neles
Digo isso ao meu coração que se inquieta
Digo isso a mim mesmo e fico triste
Por nada poder lhe ofertar
Porque não tenho trono
Nem cetro
Pois sou um andarilho
Que se aquietou nas suas terras
Por ser cativo do seu amor.  (18/11/13)


Verso inicial de Emily Dickinson 

Verso alheio/minha poesia







Todo mundo precisa de beijo
Este verso me inclui 
Nesta sua afirmação
Verso real
Verso alheio
Por ser alheio
A mim não pertence
Apenas a poesia. (13/11/13)

Verso inicial de Chacal 




Sonho




















Ontem sonhei que uma fada 
Velava meu sono
Beijou-me no rosto
Deixando um sinal de beleza
Na minha face contrita
Que se alegrou ao amanhecer. (12/11/13)

Verso inicial de Martins d'Alvarez 



sexta-feira, 1 de abril de 2016

Troca






Ela me trocara por um Blackberry
Não esmurrei os móveis
Chorei para que minhas lágrimas
Afogassem no solo minhas lembranças
Chorei para me esvaziar de ti
E me fui sobre as águas
Crendo encontrar um novo amor
Nas ilhas dos amores. (21/06/14)
Verso inicial de Rafael Rocha/Alberto Continentino 

Contemplação




Olho-me no espelho
Não sou mais sereno
Não sou mais jovem
Perdi meu olhar dileto
Minha face não oculta que tudo passou.
Um novo tempo habita meu corpo
Convicto da transitoriedade. (27/10/12)



Hora do almoço



É hora do almoço
Habito a mesa solitária
Não há mais gritos nem comandos
A mesa farta não faz mais sentido
Todos se espalham pela casa com suas farturas
Na hora do almoço
E a mesa larga que fique na cozinha
Com suas memórias
De tempos que não voltam mais. (09/0912)



O rosto do meu relógio





















Olho o rosto do meu relógio
O tempo passa sem amarras
Há vida entre números e ponteiros
A morte alcança-a sem álibis em todos os lugares
Olho o rosto do meu relógio
Ouço tua voz
Leio os teus lábios
Fonemas ficam no ar
Não caem nos meus ouvidos
Estás nas tuas distâncias
E eu a olhar o rosto do meu relógio.

terça-feira, 1 de março de 2016

Eu sou uma lenda
















Eu sou uma lenda disse isso hoje
Aos transeuntes da minha cidade
Eu sou uma lenda gritei aos ventos
Enquanto andava pelas tuas ruas
Oh princesa do norte!
Eu sou uma lenda
Não li isso em nenhuma profecia
Não há profecias sobre mim
O que há são convicções de um poeta
Que um dia serão lidas e escutadas
Porque o vento não as repetirá
Aos ouvidos desatentos. (20/12/15)




Pelo mundo








Já não há mãos dadas pelo mundo
Há indiferença
A distância se tece em tudo
Abro a janela e olho a rua
Tudo deserto,solidão em tudo
Sinto saudade da minha mão na tua
Por onde ficou nossas andanças?
Onde encontro nossas conversas?
Concluo minhas indagações
E me vejo ao teu lado
Estás sozinha
Estou sozinho
Nossas mãos não se alcançam mais
Nossos corpos planejam desencontros
Porque agora tudo se entrega à solidão. (15/02/16)


O primeiro verso é de Carlos Drummond de Andrade




Quase oração








Não pertenço a tua trindade
Sabes que sou pecador
Por isso me deixe cair em tentação
Por isso me deixe seguir devotamente
As belezas que me caem nos olhos
Deixe-me seduzir ou ser seduzido
Poupe-me a dor da indiferença
Porque a solidão não me pesa nos ombros
O que me curva é o peso do tempo
E o teu olhar fingindo que eu não existo . (17/02/16)




Isso ou aquilo







os ombros do poeta suportam o mundo
os ombros do poeta suportam a mulher exibida
os ombros do poeta suportam Itabira,seu ferro e seu aço
os ombros do poeta suportam o sol
os ombros do poeta suportam as fúrias do vento
os ombros do poeta suportam a inquietude do mar
os ombros do poeta suportam a cidade do Rio de Janeiro
os ombros do poeta suportam o tempo
os ombros do poeta suportam as leis da gravidade
os ombros do poeta suportam seus dias de pedra
numa urbe de muitas dores e muitos desamores. (26/02/16)