terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Visível



Recebo uma nova idade neste dia 18\05\23

Num tempo que passa

Na vida que finda

Na presença da morte que reina no mundo

Recebo uma nova idade e mais velho estou

Tenho muito para dizer por que vivo entre a cruz e a espada

Vivo entre o bem e o mal

Sendo santo e pecador

Recebo uma nova idade com alegria

Me conduzo numa bicicleta para outra cidade

Exibindo-a visível no meu corpo

Que está ficando antigo.

De uma das linhas de Flora Figueiredo

Permita-se doer de dor bonita


há tantas dores feias por aí

que esta dor nos faça cantar

porque já chorei demais

permita-me amiga doer com essa dor

que tu me trazes no teu poema

tão rara em nosso viver. 



O primeiro verso é de Flora Figueiredo

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Na tua presença



teus cabelos negros longos
alcançam as tuas ancas
tua voz me chega aos ouvidos
o teu sorriso se põe diante dos meus olhos
saboreio uma metáfora no teu olhar
e a inspiração se apossa de mim
mas logo te vais deixando-me com palavras
que irão se acomodar em um poema.

Na cozinha com Deus

 

eu e Deus rimos muito na minha cozinha

rimos das minhas besteiras

rimos quando eu confundo açúcar com sal

e café com Nescau

nossas risadas incomodam minha esposa

que vem nos ver ainda entregue aos risos

sonda o que nos faz rir e se vai

mais sisuda que de costume. (04\11\24) 

Desejo

 

ouço o estalar do elástico da tua calcinha

vejo tua mão ajustando-a no teu bumbum

vejo tua mão tirando-a da regada

o estalar do elástico da tua calcinha

ecoa nos meus ouvidos

fazendo vir a mim a poesia

que eu tanto desejo. (02\12\24)  

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Discurso do vate sexagenário

 



ontem eu tinha vinte anos

não me agredia as fúrias do tempo

eu tinha a bravura de um guerreiro

as dores do viver não eram intensas em mim

hoje eu tenho sessenta anos

e o tempo é bem mais veloz na sua passagem

entre os mortais

envelhecendo tudo que ele contempla com se fosse um deus cruel

tenho as dores do mundo e todos os sentimentos também

o tempo em minha matéria pesa

curva-me os ombros, entorta-me

entrego-me a poesia e aos seus apelos

de mulher dengosa ou furiosa

riqueza que eu partilho sem me empobrecer. (11\10\24)

Em combate

 

Enquanto eu rezo meus pensamentos se deslizam no teu corpo

Enquanto eu rezo tu ficas a me perturbar

Enquanto eu rezo tu me exibes a bunda

Enquanto eu rezo tu deitas os seios diante dos meus olhos

Enquanto eu rezo tu meneias a cabeça e os cabelos cacheados

Enquanto eu rezo tu gemes recordando o orgasmo da noite passada

Enquanto eu rezo me flagelo com o terço para que desapareças

Enquanto eu rezo tu me tiras do caminho rumo ao céu

Enquanto eu rezo tu me vences no combate

Continuo no dia seguinte com o terço na mão. (25\10\24)

Busca vespertina

 

enquanto eu busco um verso matam mulheres pelo mundo

enquanto eu busco um verso o sul e o leste da Espanha estão sob o domínio das água

enquanto eu busco um verso carrego por toda parte a mandíbula inferior dos meus mortos

enquanto eu busco um verso tenho dentro de mim coisas para serem esquecidas

enquanto eu busco um verso a poesia não se anuncia no que eu vejo

enquanto eu busco um verso tudo jaz no campo -santo

enquanto eu busco um verso vejo na esquina uma tarde inesquecível de maio

enquanto eu busco um verso tudo acontece no mundo

e num piscar de olhos tudo se acaba

porque tudo é frágil e o verso que eu busco será adubo de cemitério

ou nem isso. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

no tempo



setembro findando
a vida resistindo nas garras da morte
setembro findando
cabelos ao vento no tempo que passa
setembro findando
e eu tenho uma rosa linda nas mãos
setembro findando
e nos anuncia um novo mês
setembro findando
na minha e na tua vida
setembro findando
vícios novos e antigos persistem
setembro findando
mas tudo continua
porque a vida ainda não se rendeu. 

Das linhas lusitanas

 



Despe-te só para mim

Por favor, diz que o fazes. Nuno Guimarães



meu bem já podes vir me ver

sobral é uma cidade quente

não sentirás frio ao despir-se para mim

venha querida sem medo desnudar -se para mim

deves -me isso

lembra-te dessa promessa sob a lua cheia?

venha querida durante o dia ou durante a noite

minha cidade não esfria

desnude-se para mim meu anjo

pagarás tua promessa e não te sentirás mal

porque eu a banharei com água dormida. (23\09\24)

 

 

Poema de face (In)existente

 



quando eu nasci disseram-me que um anjo me guardava dos males

cai, levantei, não senti suas mãos me erguendo

os abismos me seduziram fiquei só por lá

fui gauche?

fui

fui pela vida

fui

tinha a morte na minha sina?

tinha

e o anjo que devia me guardar

nunca me seguiu os passos

nunca soube seu nome

nem se era torto como eu

e a sua voz não me chegou aos ouvidos. (02\10\24)

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Na sina do pedinte



quem pede recebe
não
sim
ou talvez
quem pede recebe
leva algo na memória
sim
não
ou talvez
quem pede recebe
vai-se levando na bagagem
sim
não
ou talvez.