segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Entre nós



entre nós as mesmas coisas
o mesmo círculo vicioso das metáforas e da poesia
entre nós o mesmo vinho do porto
que eu só encontro em tua casa
entre nós as mesmas falas e os mesmos poetas diletos
entre nós o tempo passa, a tarde cai, vem a noite
entre nós se ergue a despedida
preciso ir e seguir minha sina
a poesia do nosso encontro me chama
deitá-la-ei numa folha de papel em branco
antes de me entregar ao sono.

De um ponto




o bico do peito num ponto de vista

o bico do peito no ponto da vista

o bico do peito é uma ponta ou aponta?

o bico do peito em linha reta tem direção certeira?

o bico do peito no dizer do vento é uma seta

o bico do peito exposto ou sob as vestes existe

quer o olhemos ou não

o bico do peito é um dedo em riste

aponta para mim ou para ti?

eis o mistério? 

sábado, 3 de agosto de 2024

Discurso ocidental



a espada e a cruz
a cruz e a espada
apossaram-se de mim
encheram-me medos
deram-me culpas e pecados
a espada e a cruz
a cruz e a espada
invadiram os mares
dominaram os povos
vestiram-nos com suas vestes
deram-nos suas imagens e semelhanças
a espada e a cruz
a cruz e a espada
guiaram mãos
guiaram vidas
conduziram-nos aos braços da morte
a espada e a cruz
a cruz e a espada
ecoaram no ocidente
o discurso dos podres poderes.

Na bike I



girando a catraca saio do lugar
girando a catraca pedalo mais vezes
girando a catraca vejo novas coisas
nos mesmos caminhos
girando a catraca vejo seu corpo em movimento
nos vemos passando um pelo outro?
girando a catraca irmano-me ao sol, ao vento
aceno aos pássaros no céu da longa estrada
girando a catraca levo-me a outra cidade
onde sou recebido como filho dileto
girando a catraca desenho despedidas
com promessas de um breve retorno
girando a catraca volto para casa
com muitas fotos e coisas novas para dizer. 

Depois dda canção



meu coração bate
bate a tua porta
meu coração bate sob a tua mão
meu coração bate encostado no teu rosto
meu coração bate próximo ao teu
meu coração bate feliz
porque bate, bate
e nunca apanha. 

Na bike II



giro a catraca e rezo pelo mortos
sob as cruzes fincadas na terra
giro a catraca e avisto a longa estrada
que se encurta a cada pedalada
giro a catraca e o tempo passa
trazendo-me o sol do novo dia
giro a catraca e os galos cantam
uma cantiga que eu não me atrevo a cantar
giro a catraca e o novo dia teceu a manhã
que faz sombras sobre mim
giro a catraca e já estou em casa
desejando uma nova jornada. 

domingo, 7 de julho de 2024

Poema dolente





o que eu não falei

dói-me

o que eu falei

dói-me

a solidão que não me abandona

nem quando estou contigo

dói-me

esse silêncio matinal

dói-me

a minha e a tua tristeza

dói-me

um poema sufocando outro

dói-me

um poema que não se conclui

dói-me

dói-me este dia

e por que não doeria o poema? (28\06\24)



Dizeres para a princesa do norte

 



Sobral faz aninhos

e eu bebo vinho do porto na casa do poeta Ferreira Lima

Sobral faz aninhos

e eu desço a rua Domingos Olímpio

Sobral faz aninhos

e eu vejo o tempo passar no beco do cotovelo

Sobral faz aninhos

e eu ando pela cidade com novas feições

Sobral faz aninhos

e eu deito versos no vento

Sobral faz aninhos

e eu fico a escutar sílabas eólicas

Sobral faz aninhos

e eu envelheço junto a cidade

Sobral faz aninhos

e o céu bonito me diz que vai chover

Sobral faz aninhos

e o sol volta outra vez

Sobral faz aninhos

e o silêncio do feriado nas ruas me invade

mas tudo é festa e há festa em tudo. (05\07\24)

Até que eu volte



baby, tu ainda dormes

e eu estou na estrada

longa estrada sobre uma bicicleta

baby, tu ainda dormes

e o calor do meu corpo ficou ao teu lado

aquecendo-te até que eu volte. (07\07\24)

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Mortalha

 

Escolhi minha mortalha

Usei -a entre os mortais

Usei-a sem pagar promessas

Fui franciscano por vários dias

Sinto que ainda o sou por este mundo

Meu epitáfio um dia escreverei

Tomara que dê tempo

Antes da morte chegar. (06\05\24) 

Revelação matinal

 

O poeta olha o tempo pela janela aberta

Come uma banana doce como os lábios de Iracema

Seu olhar alcança distâncias

Depara-se com o infinito

Onde tudo finda. (03\05\24)

 

Nova jornada

 

Sob o sol envelheci

Sob o céu compreendi o que é infinito

No mar constatei o que aprendi sob o céu

Minhas andanças concluem ciclos

A esperança faze-me dar novas passadas

Na longa estrada na qual deito os olhos

Contando sessenta anos

Encetando uma nova jornada. (17\05\24)