domingo, 14 de agosto de 2022

Memória paternal



já fui teu herói
afirmaste-me numa mensagem de whatsapp
devo ter sido também o teu bandido
porque uma moeda sempre tem dois lados
cara ou coroa?
na palma da mão a resposta
na cena a ação
no ponto de vista
uma certeza?

Aparição



Ela vinha sorrindo trazendo estampas nas coxas
Seu sorriso não se destinava a mim
Nem as estampas das suas coxas
Belas estampas que não se exibiam
Eu apenas vi e pensei em poesia
Enquanto te olhava
Enquanto tu passavas por mim. 

Pássaro de tróia



sou vento venho de Tróia
inquietei palavras na serra da Meruoca
fiz-me pássaro e poeta na cidade de Sobral
engendrei filhos com o barro que eu tinha nas mãos
sou pai as vezes mãe
uns me leem outros afastam os olhos dos meus escritos
Para uns sou poeta outros concluem que sou uma farsa
me apontam o dedo e me destinam ofensas
vou-me pela cidade sendo o que eu sou
saudoso de Tróia seu vento me acompanha
no pássaro que eu ainda sou.

Lua de agosto


Lua cheia de agosto
Bolacha fogosa sobre a cidade
Bolacha fogosa da minha infância
Nas alturas sobre nós
Não sacia a fome dos homens
Mas enche os meus olhos de encantos.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Mãe nada gentil

a pátria amada é fascista
o ódio se avoluma sob o céu
e o amor é trucidado em cada esquina
há sangue no poema e em todo o país
há sangue nas tuas lágrimas e nas gotas de sereno
que amanheceu no teu rosto
há sangue alagando o solo deste povo
filhos de uma mãe nada gentil.

Encontro matinal

No meio do caminho tinha uma cobra e um celular quebrado
No meio do caminho tinha um grito calado
No meio do caminho tinha um olhar que deixou de seguir as distâncias
No meio do caminho tinha andanças exaustas
Deixei-as para trás
No meio do caminho o vento brinca e joga areia
Nos olhos do tempo que tece sua passagem
No meio do caminho o poeta reitera versos
Encontra-se com textos para a poesia continuar sua jornada. 

Sono (in)desejável



durmo
acordo
é um novo dia
novas situações ou situações que envelhecem comigo
durmo
acordo
é um novo ano
novas esperanças
estou mais velho
durmo
acordo
meus filhos foram embora
já são homens feitos
passo os meus dias só com Eva
carecendo do paraíso que não lhe posso dar
durmo
acordo
será que acordei ou a rotina continua por se mesma?
durmo
acordo
finda um dia
o cansaço de longos anos rende-se à falência
e o sono eterno se apossa de nós.

Das tuas alturas

Tremo diante de ti tal qual vara verde
Porque és meu Deus
Porque ainda sou pecador
Porque ainda lhe tenho temor
Tremo diante de ti meu Deus
Porque não tenho as mãos limpas
Nem o coração puro
Todo dia fico sob o vosso olhar
Todo dia é o último para mim
É por isso que me vês tremendo
Das tuas alturas onde tudo é eterno.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

No meu coco

o meu coco fica odara
ouvindo o coco do Caetano
no meu coco as vezes tem um mar
as vezes tem apenas sal
lágrimas de Sobral
no meu coco tem poesia
que transita do lado direito para o esquerdo
a inspiração vai e vem
como se fosse o vento
no meu coco tem outros dentro
às vezes há só um saco vazio de vento
com fonemas pulando dentro
no meu coco há dores e delícias
coragem de cangaceiro e fé de um santo
no meu coco não há água de um coco verde
fico odara quando a encontro abundante
no meu bar dileto.




Queixa junina

amei muitas musas
até fiz queixas por mais afetos
o tempo passou
e musa de poeta é página virada
ficou no passado
vago no monte parnaso
por lá só o vento e a solidão se avolumam
e a memória dos vates que me antecederam.

Entre os mortais



vi o sol matinal
meu olhar ficou cheio de luz
luzes coloridas
impedindo-me de ver as distâncias
veio a chuva
foi-se a chuva
ficou o frio
meu nariz entupiu
respiro pela boca
ainda é junho entre os mortais.

Como se fosse

é como se fosse uma guerra

todo dia devorar um leão

e amarrar outro pro dia seguinte

é como se fosse uma guerra

o pão de cada dia

a labuta em falta

falta tudo até afetos

é como se fosse uma guerra

a solidão em todos os lugares

o capital no punho de poucos

e as ruas acolhendo perdedores

é como se fosse uma guerra

não vencemos nunca.


O verso que se repete é de Paulo Leminski