quarta-feira, 3 de março de 2021
Proposta de poema
agora eu sou a poesia que não se escreve
nem se inscreve
longe dos meus papéis e esferográficas sinto - me inútil
bem mais que minha poesia
bem mais que os dias que vem e vão
Agora eu sou extrema inutilidade. (04/02/21)
Tecedor dos dias
contei os dias
fiquei ansioso
não fui feliz
veio o dia esperado e a decepção indesejada
agora passo como passam os dias
nada mais espero
teço dias agradáveis
e o tempo se quiser que passe. (16/01/21)
Discurso do pulso
mais de um mês sem ver teu rosto negro entre números romanos
mais de um mês sem teu peso no meu pulso
mais de um mês longe do teu olhar no meu
mais de um mês sem passar o tempo contigo
mais de um mês eu não sei com tu passas sem mim
mais de um mês e o tempo passa
sem minha atenção
antes tão atenta. (13/02/21)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Socraticamente
o tempo passa
o ano passa
eu passo
tu passas
e as malas batem
o que era novo fica velho
tecemos despedidas
o ano que virá será novo ou repetirá cenas do cotidiano
diante dos mortais?
vem-nos a metafísica
indagações de plantão
e eu só sei que nada sei.
o ano passa
eu passo
tu passas
e as malas batem
o que era novo fica velho
tecemos despedidas
o ano que virá será novo ou repetirá cenas do cotidiano
diante dos mortais?
vem-nos a metafísica
indagações de plantão
e eu só sei que nada sei.
Até que ele venha II
suja
limpa
limpa
suja
até que finde o tempo
até que finde a respiração
e nos venha o grande sono.
Até que ele venha I
deito-me
falta-me o sono dileto
volto para a salafico entre livros
o vento da meia noite me encontra lendo
fecho o livro e fico a sentir
essa delícia eólica.
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Sob o sol de outubro
sob o sol
sobre uma bicicleta
sobre duas rodas
sobre o ar
pneus sobre a estrada
pés, pernas giram os pedais
a estrada se estica
vejo distâncias
eita sol intenso!
já é outubro
e o poeta sob o sol
insiste em chegar
porque sua casa lhe espera
numa das ruas da cidade. (03/10/20)
Sempre dito
ninguém é meu nome
já disse não quero discípulos
nem seguidores
siga seu caminho se é que tem um
não queira saber meu nome
nem onde hei de repousar a cabeça
ninguém é meu nome
pra calar sua voz
e sua indagação. (23/11/20)
Pra valer
não me peça um poema
escrevo-os com liberdade
me peça pra lavar a louça
limpar a casa
cumpro essas tarefas
mas um poema não me peça não
sou do tipo que não promete
se prometo é pra valer.
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
Chamado juvenil
volta ao pampa, pai
o poeta insiste no chamado
o chimarrão pesa-lhe nas mãos
as sandálias não saem do lugar
o poeta sai de si
entra em outro corpo
noutra voz
chama o pai
mas seu pai não vem. (17/09/20)
O verso inicial é de Carpinejar
as sandálias não saem do lugar
o poeta sai de si
entra em outro corpo
noutra voz
chama o pai
mas seu pai não vem. (17/09/20)
O verso inicial é de Carpinejar
Quando rezo o terço
adormeço com Ave Marias nos lábios
acordo rememorando mistérios rezados
o terço no chão trago-o ás mãos chamo a trindade santa
e vou deitar-me sabendo que rezei
mas o terço ficou incompleto.
o terço no chão trago-o ás mãos chamo a trindade santa
e vou deitar-me sabendo que rezei
mas o terço ficou incompleto.
Sob o sol
tudo vira lama
nas valas
nas sarjetas
nos jazigos
tudo vira lama
a céu aberto
sob o sol
ou nas trevas
tudo vira lama
e o tempo passa
carregando o esquecimento nas costas
o lamento que se ouve vem dos retratos nas paredes
bordando memórias no ar.
a céu aberto
sob o sol
ou nas trevas
tudo vira lama
e o tempo passa
carregando o esquecimento nas costas
o lamento que se ouve vem dos retratos nas paredes
bordando memórias no ar.
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