quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Via sacra cotidiana

 Jesus Cristo está na beira das calçadas

Jesus Cristo está tatuado nas costas dos excluídos

Jesus Cristo está nu da cintura para cima

Transeuntes indo e vindo

O tempo passando

Veículos velozes e furiosos?

O semáforo sangra sob o céu

Carros em fila paralisados

Jesus caminha entre eles com as mãos estendidas

Finda o percurso sem nada nas palmas. (27\010\23)

Desejo matinal

 Eu quero as memórias das putas tristes

Quero deitá-las num poema

Quero lê-las num livro

Eu quero as memórias das putas tristes

Doendo em mim enquanto as vejo em fotos diletas

Putas nunca as tive nem as terei

Mas hoje eu as desejo nas páginas amareladas do Gabo. (01\11)

 

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Visão vespertina I

 

Teu corpo branco nu

Teus cabelos loiros sobre os teus seios

Teu umbigo cheio de ar sob o céu

Teu púbis loiro ofuscando o sol

Meus olhos correndo pela tua nudez

Que se imagina solitária nessa ilha

Que eu inventei só para ti. (20\09\22)

Ao que me completa

 

Senhora poesia


Ninfeta poesia

Puta poesia

Penso em ti o dia todo

Tenho tempo para ti

Todo o tempo do mundo

És o meu ofício e oração cotidiana

Não me dás o sustento

O pão de cada dia busco em outra labuta

E nessa labuta tu és o que sobra em mim. (25\11\22)

Tua bunda

 

vi tua bunda sob o jeans que coisa linda de se ver

quase fiquei cego de tanto vê-la

cantei para sua bunda

segui-a dançando pela rua

dobrei a esquina para que não me visses

tão contente por causa da tua bunda. (02\10\23)

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Da minha terra

 iracema

iracema

tu dormes nua no meu poema

depois de teres me coberto

depois que eu te cobri

iracema

iracema

eras a virgem dos lábios de mel

dos verdes mares da minha terra

iracema

iracema

agora tu tens a flor deflorada

mas tu domes feliz comigo

no teu sonhar. 

 

Dia de domingo

 na fila

a fala

o stress

o silêncio

na fila

uma linha reta

uma linha curva

que se desenha no piso do mercantil

na fila

tantos pés

pernas diversas

até se inquietam

mas não andam. 

 

Aparição de final de agosto I

 tu vens com os teus micróbios sorrindo para mim

ficamos próximos

minha boca na tua

nossos micróbios se unem ou se devoram

neste instante do beijo

tudo é tão gostoso sob o céu

mas tu te vais e o que me resta são memórias e salivas sobre os lábios. 

 

sábado, 5 de agosto de 2023

De um dizer



Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem-vestida (...) Pe. Antônio Vieira

ludo-me com as caveiras enfeitadas
vejo beleza nisso
iludo-me com as caveiras enfeitadas
deito-me com elas
caio em suas ciladas
iludo-me com as caveiras enfeitadas
diante delas não domino a razão
a loucura se agiganta em mim
qual sermão me salvará?
qual sacerdote me acolherá em sua misericórdia?
abro os ouvidos, busco suas vozes
nada ouço
meu bom padre Antônio Vieira, vinde socorrer-me
iludido estou e não fujo das caveiras enfeitadas
como o diabo foge da cruz. 

Na parede da sala



os dias
as noites
os meses
os anos
no calendário
na madeira
da cruz de Cristo
na parede da sala.

Perspectivas



os prédios olham de cima para baixo
os ônibus lotados de falas e fonemas
os transeuntes com pressas involuntárias
e o poeta bêbado equilibrando-se no paralelepipedo
os prédios olham de cima para baixo
a moça manca na faixa de pedestre
os veículos se aproximando
os passos apressados
os prédios olham de cima para baixo
erectos como se fossem falos
nenhuma curva em suas linhas
bem fincadas no solo
os prédios olham de cima para baixo
o dia vindo
a noite chegando
o tempo passando
os prédios olham de cima para baixo
a freira ciosa
a adúltera transbordando desejos pelos poros
e um tarado se reprimindo bem distante
os prédios olham de cima para baixo
dois loucos deduzindo tudo
olhando de baixo para cima
desatentos a vida e a morte. (25\07\23) Fortaleza

Ao gosto



agosto
a gosto
no tempero
no amor plural
agosto
a gosto
nos pratos
nos paladares
agosto
a gosto
nos olhares
nas bocas
nos corpos ciosos
agosto
a gosto
no bom gosto
até o fim. (01\08\23)