sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Posse & Cia



A dele
A minha
A nossa
Adele
Canção vibrando nos meus ouvidos
Voz intensa no ar
Tua canção na minha voz
Tão pobre do teu idioma. 



No meu corpo

Para Catherine

Sei como te sentas
Vi-lhe no concerto com o violoncelo entre as pernas
Vi-me no lugar do teu instrumento
E o som que dançava no ar
Tu o tiravas do meu corpo
Senti teus dedos longos
Acolhi-os em mim
Tua voz
Teu sorriso
Teu olhar
Tudo isso em mim
Nas tuas mãos
No meu corpo.

Outra vez



teus lábios não os vejo mais
ainda os tem avermelhados com o teu batom dileto?
és ausência
notória nos meus dias
és saudade
sentida e desejosa do que nunca houve
ainda és tão jovem
acho que poucas mudanças ocorreram
correram pelo teu corpo
em mim tudo é  visível
a té o desejo de vê-la outra vez.

Lista



Fica um retrato na parede
Fica uma flor dentro de um livro
Fica um adeus no ar
Fica a canção mais dileta
Fica a lembrança do que não se ver
Fica a camisa suja de batom
Fica tua voz nos ouvidos
Fica teu cheiro nas narinas
Fica o caminho que abandonaremos
Fica um desejo tentando se aquietar...
Tudo isso fica nos cômodos da casa, nas gavetas,
Nas paredes,no corpo, na alma...
Até a vida se esgotar.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Chegada

Bananas apodrecem no país
Bananas apodrecem na quitanda de Chico Mota
Que se foi com minha infância
Bananas apodrecem nas mesas das cozinhas das casas
De todas as classes sociais
O país apodrece sob o céu
Sobre a terra
O tempo passa no meu país que apodrece
A voz da minha amada me chama
O poema pode esperar?
Meu país pode esperar?
Minha amada pode esperar?
O país apodrece e o seu mel não tem sabor
Há fomes urgentes
Há bananas passadas
Há bananas podres no poema
Aproximo minhas narinas
Chega minha infância
E o meu país apodrece. (04/07/17)



O ato

O amor não tem hora
Pode até ter tempo
Mas esse tempo não se marca
Não se mede
A medida é nenhuma
O amor não tem hora
Tem desejo
Antes ou depois do sono
Ou numa noite insone...
O vento desnuda a amada sonolenta
O corpo lateja
A alma faz parceria
E nessa cumplicidade
Tece-se o ato. (19/07/17)



Na hora do almoço

é hora do almoço
no centro da mesa minha solidão
meus braços,minhas mãos sobre a mesa
meu prato farto
meu cálice com vinho
sempre do meu lado esquerdo
é hora do almoço
e nenhum moço me olha
não há moças na sala
busco olhares
nada encontro
o que vejo tá no centro da mesa
fala e se cala. (01/08/17)

Antes de tudo

Clarice,todos os dias osculo tua face
No retrato que mantenho na parede
Deito meu olhar nas tuas páginas
Encanto-me com teus dizeres
Volto ao corredor
Afago os teus cabelos
Imagino que me sentes
Destino-lhe meu sorriso
E me vou aos afazeres
Lamentando não tê-la conhecido. (04/08/17)


sábado, 1 de julho de 2017

Em resposta



Tu dizes por aí que eu sou apaixonado por ti
Tu falas tanto  que eu fiquei sabendo
Venha a mim oh musa amada
Fale-me dos meus sentimentos se eles te honram
Se eles te incomodam fale-me
Deixar em cada esquina
Em cada ouvido o que já sabes de mim
Te faz bem?
Se és feliz assim prossiga querida
Continuarei encantado por ti
Sinto-me bem assim
Quando alguém me acolher em seu amor
Virarei a página onde tu te encontras. (10/03/17)


Tarde de domingo


Estou só
Um casal deita os olhos em mim
Olho-os
Sentem pena de mim?
Indago –me
Ele segura o queixo com a mão direita
Seus dedos longos se deslizam nos seus lábios
Como se andassem
Ou edificassem um caminho ao redor da boca
Esgoto meu capuccino
Ela olha para baixo
Parece pensativa
Ambos são lindos
Minha solidão é que não é nada bela
Nesta tarde de domingo. (02/04/17)


De passagem



Um pedaço de lua surge no céu
Alcança minha janela
Ilumina as trevas do meu quarto
penso em um poema
perco o sono
Nuvens cinzentas se aproximam do meu olhar
Meu quarto volta às trevas
Olho o relógio o tempo passou e passa
Sinto-o em mim
Vejo-o afirmando
Que não sou mais o mesmo. (19/05/17)









Poema torto



quando nasci, um anjo torto
olhou-me torto
se disse algo não entendi
torto eu estava
torto continuei
essa lordose
doi-me tanto
o anjo disso já sabia e nem me  disse
foi -se torto
e este acontecimento não me sai da memória. (30/06/17)


O primeiro verso é de Carlos Drummond de Andrade