terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Manifesto para esses dias


o poeta se inspira
luta com palavras
se engasga com fonemas
fica entre metáforas
o poeta combate os desejos
acata-os
busca a realidade das coisas perdidas
encontra-as quando não as procura
sente-se perdido na rua deserta
volta-lhe a memória e seus passos se vão
o poeta é um, é dois, é mil porque é o que é
e mesmo que haja demora
a poesia não o deixa falando sozinho pelas ruas da cidade
quando ele fala sozinho é porque deita versos no vento
que lhe vem das distâncias trazendo-lhe recados das amadas
que não mais hão de voltar.




Desse jeito



não tem mais jeito
o proposto
o posto
posto está
será deposto?
exposto?
não sei
quem sabe?
o tempo
o que eu sei é me deitar em versos
e não surtar
porque não tem mais jeito
bebamos deste cálice
passaremos essa travessia bêbados
se for possível nos virá o riso
será melhor assim.












Tua nudez


tua nudez é fala e silêncio diante dos meus olhos
tua nudez é linguagem e barulho dos fonemas
nos meus lábios
na minha voz
tua nudez não tem enigmas e se deita nos meus versos
desprovida da vergonha que tu tinhas antes de me conhecer
tua nudez sempre tua para ficar ou para ir embora.





sábado, 1 de dezembro de 2018

No teu poema


Entro em teus poemas.
Carmen Silvia Presotto

eu entro no teu poema para conversar com teus versos
eu entro no teu poema como se tivesse intimidade
eu entro no teu poema para deitar os meus olhos castanhos na tua escritura 
eu entro no teu poema porque encontro a porta aberta
eu entro no teu poema para inventar versos só meus
eu entro no teu poema para não desistir de ser poeta
eu entro no teu poema porque tu ainda vives
eu entro no teu poema para fingir minha presença
eu entro no teu poema como se tivesse pleno domínio dele
eu entro no teu poema para que meus inimigos não me encontrem
eu entro no teu poema para me enroscar com tuas metáforas
eu entro no teu poema para me encontrar contigo
eu entro no teu poema para ocultar minhas lágrimas
eu entro no teu poema porque é o teu mundo
e lá encontro a pasárgada desejada pelos mortais. (07/11/18)



Ainda insisto



ainda serei escutado além das estrelas?
cá entre os mortais suplico tanto
nada vejo acontecer
o que eu vejo são realizações de outros desejos
de outras orações?
ainda serei escutado além das estrelas
por isso eu persisto com minhas súplicas
por isso eu persisto com meus desejos
pedindo bem ou mal ainda insisto. (05/11/18)








Manifesto para esses dias

o poeta se inspira
luta com palavras
se engasga com fonemas
fica entre metáforas
o poeta combate os desejos
acata-os
busca a realidade das coisas perdidas
encontra-as quando não as procura
sente-se perdido na rua deserta
volta-lhe a memória e seus passos se vão
o poeta é um, é dois, é mil porque é o que é
e mesmo que haja demora
a poesia não o deixa falando sozinho pelas ruas da cidade
quando ele fala sozinho é porque deita versos no vento
que lhe vem das distâncias trazendo-lhe recados das amadas
que não mais hão de voltar.











Nesta tarde



De mim me perco e me esqueço
volta-me à memória e sigo meu caminho
sem entender porque me perco e me esqueço
olho as mulheres nos olhos e imagino que elas me tem afetos
porque elas me destinam sorrisos no olhar
talvez não seja isso e o que será?
não irei segui-las com minhas indagações
nesta tarde de sol impiedoso.


O verso inicial é de Thiago de Mello

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Por bondade


Gosto de cair nos teus olhos
Estes olhos sempre verdes
Ficam grandes quando encontram o meu olhar
É por eles eu ouço a tua voz
É por eles que eu vejo o meu caminho escuro
A qualquer hora do dia
Não vejo nada mais em ti
Só tenho olhos para os teus olhos
Sempre verdes
Que por bondade se destinam a mim
Pobre e pecador degredado filho de Eva. (20/08/18).

Poema das sonoridades



minha sola absolveu o solo
minha sola em par de velhos sapatos
nas andanças pela cidade
atrás de ti
minha sola absolveu o solo
caiu na rotina
sob os meus pés
sobre o solo
minha sola absolveu o solo
fez-se solo no solado dos meus pés.(23/10/18)


O verso que se repete é de Arnaldo Antunes











Anunciação


Na boca do anjo
No ventre de Maria
O verbo
A voz de Deus
Tecendo seu filho
Na boca de Maria
Nos ouvidos do anjo
Na convicção de Deus
O sim
A sina
A profecia
E a mulher matriarcada. (09/04/18)


O cálice



O cálice sobre a mesa
Transborda vinho tinto
Sangue meu e teu?
O cálice sobre a mesa
Olho-o entristecido
Terei que bebê-lo todos os dias
E engolir o líquido petrificando-se na garganta
Não cantarei
Não rezarei
Pois quem podia afastá-lo de mim
Não o afastou
Por isso eu sangro
E o cálice não fica vazio
Sobre a mesa.








terça-feira, 2 de outubro de 2018

Essa negra


Essa negra é muito linda
Se ela desejar eu serei seu escravo
Regarei a sua flor para que ela não perca o viço
Essa negra é muito linda
Não sei de onde ela veio
Ela é diferente das negras daqui
Eu a quero para mim sem senzala
Livre como o condor
Essa negra é muito linda
Quero-a sentada sorrindo no meu falo
Com a nuca exposta chamando os meus lábios
E eles cativos farão as suas vontades.